NaNoWriMo: 30 dias para escrever um livro

Escrever um livro de 50 mil palavras em 30 dias é uma proposta audaz. É natural, portanto, que o National Novel Writing Month (NaNoWriMo) seja visto com desconfiança ou até mesmo descaso, principalmente por escritores e demais profissionais do mercado editorial.

As principais causas para a aversão dos detratores do NaNoWriMo são a má interpretação da essência do evento e a crença preconceituosa de que este não produz boas obras. Ainda que a tais críticas não sejam injustificadas, é inegável que o evento tem sim seus méritos.


Críticas recorrentes

O NaNoWriMo não é sobre qualidade, mas quantidade; é uma competição, nada mais.

Essa visão equivocada é reforçada não só por muitos participantes como pelo próprio site do evento. Embora encorajem as revisões, os organizadores do NaNoWriMo não alardeiam todo o trabalho que aguarda os escritores após o fim de novembro.

Por isso, é comum ver trabalhos disponibilizados na íntegra na Internet poucos dias depois de concluídos, sem que tenham passado sequer por uma fundamental correção ortográfica e gramatical.

O objetivo não é produzir um livro de 50 mil palavras para ser exibido como um troféu nem para abarrotar a caixa postal de editoras na esperança de ser publicado. O escritor consciente compreende isso, aceita que é difícil escrever algo de qualidade em 30 dias e dedica os dias, meses, anos seguintes revisando e aprimorando seu trabalho.

“Eu odeio o NaNoWriMo.”

O NaNoWriMo não encoraja a boa escrita e muito menos sua melhor prática.

Ninguém define melhor seu processo de trabalho do que o próprio escritor. Não existe um só meio de se produzir um romance. Alguns passam anos sobre um original, outros concluem em meses, dias ou até mesmo horas.

Sir Arthur Conan Doyle escreveu o livro de estreia do detetive Sherlock Holmes, Um Estudo em Vermelho, em 3 semanas. John Boyne escreveu O Menino do Pijama Listrado em apenas dois dias e meio. O brasileiro Ryoki Inoue venceu o desafio de um americano ao escrever um livro em algumas horas.

O prazo curtíssimo do NaNoWriMo é apontado como o vilão da boa escrita: pressionado pela meta “absurda”, o participante poderia se valer de artifícios como abusar do uso de adjetivos e advérbios, por exemplo. Desnecessário dizer que isso é trapaça, não é? Tais atitudes apenas reforçam, erroneamente, o clima de competição do evento.

O escritor mais produtivo do mundo segundo o Livro dos Recordes.

No NaNoWriMo a pressão não forma diamantes, apenas pó.

A criação literária é caracterizada pela moldagem parcimoniosa da obra: é preciso trabalhar as ideias na mente por um tempo, deixá-las amadurecer e só então transpô-las para o papel. Essa é uma noção comum entre escritores e com a qual concordo. Mas o NaNoWriMo não vai contra isso.

As “regras” do evento ditam que trabalhos anteriores não podem ser aproveitados, isto é, o livro deve ser escrito do zero. Isso não significa, porém, que o participante seja proibido de dedicar-se nos meses anteriores à maturação das ideias do romance que pretende escrever.

Também não impede que, nos meses seguintes, o texto seja revisado e aprimorado. A grande maioria dos livros produzidos durante o evento não está pronta para ser mostrada ao mundo. Um Estudo em Vermelho e O Menino do Pijama Listrado com certeza não foram publicados sem uma criteriosa revisão.

Todo grande romance passa por rigorosas etapas de revisão.

O NaNoWriMO não incentiva a mentalidade certa para ser criativo.

Atentar para o total diário de palavras pode minar a criatividade do participante e tirar o seu foco da história, que é o que realmente importa. Sim, é bem possível. Acontece que novembro não é um mês para ser criativo, mas sim produtivo.

Certa vez, escutei um escritor descrever seu processo de trabalho. Havia uma longa fase de criação, dedicada apenas à maturação de ideias, pesquisas, mapas mentais. A fase seguinte era a de produção, na qual ele escrevia a história efetivamente, utilizando como referência todo o material obtido na fase de criação.

Em outras palavras, somente quando este escritor sentia ter esgotado todas as possibilidades de criação que lhe agradavam é que ele começava a escrever, mecanicamente, o livro de fato.

Alguns escritores separam a fase de criação da fase de produção.

O NaNoWriMo esgota a mente de seus participantes a troco de nada.

Sim, o evento é uma maratona verdadeiramente extenuante. Haverá momentos em que o participante se sentirá frustrado, desesperado, tentado a desistir. Isso acontecerá ainda com maior frequência se tiver de conciliá-lo com trabalho ou estudos.

Para os vitoriosos, o fim de novembro poderia reservar uma aversão passageira pela escrita, não fosse pela satisfação de concluir a primeira versão de um romance. Finalmente aquela história que antes existia apenas em na mente está ali, diante dos olhos, palpável. Está pronta, é impecável? Claro que não. Mas ela existe!

Aqueles que não conseguiram atingir as metas do NaNoWriMo não têm razão para se abater e devem aproveitar a experiência para refletir, aprender e evoluir como escritores.

Um provável vencedor do NaNoWriMo.

A natureza do NaNoWriMo

Escrever, escrever, escrever. Essa máxima repetida pela maioria dos escritores se aplica bem ao evento. Quanto mais se escreve, mais se aprende a escrever. Quando o participante voltar ao texto original algum tempo depois, aprenderá ainda mais ao reescrever aquele rascunho tosco.

NaNoWriMo é isso. É o empurrão para tirar o escritor da inércia, é a pressão na forma de prazo, é a adrenalina do desafio, é o incentivo para se escrever a primeira versão daquela história que há muito tempo só existe fragmentada em pensamentos.

Dizer que o evento não produz bons livros é bobagem. Se fosse verdade, livros como O Circo da Noite, de Erin Morgenstern, e Água para Elefantes, de Sara Gruen, jamais teriam sido publicados nem se tornado sucesso de vendas.

Quem disse que o NaNoWriMo não produz bons livros?

Perdoem-me os detratores, mas o NaNoWriMo tem sim seu valor. Não fosse assim, o evento não contaria com o apoio de escritores do calibre de James Patterson, Neil Gaiman, Garth Nix, Philip Pullman, John Green e Meg Cabot, não é mesmo?

Para saber mais:

  1. NaNoWriMo: 30 dias para escrever um livro – saiba mais sobre o evento no primeiro artigo da série que estou escrevendo.
  2. National Novel Writing Month PEP Talks: palavras de incentivo de escritores renomados na página oficial do evento (em inglês).
  3. 5 livros publicados que nasceram no NaNoWriMo: um TOP 5 no blog For books’ sake (em inglês).
  4. 13 verdades terríveis sobre o NaNoWriMo: o outro lado da moeda por um participante do evento (em inglês).
  5. Como escrever um livro em 30 dias: um guia elaborado pelo jornal The Guardian (em inglês).

29 Comentários

  1. Tatiane Maicka

    Nossa! Se eu soubesse do NaNoWriMo há poucos dias atrás eu até entraria. Quem sabe ano que vem? Mas enfim, o blog ficou muito interessante e útil, muito obrigada. 🙂

    • T.K. Pereira

      Tatiane,

      Bom que todo ano tem NaNoWriMo! Mas nada impede você de fazer sua própria maratona de escrita… Hein, hein? 😉

      Abraço.

  2. mtsantoro

    Vou encarar o desafio.

  3. Karlinha Ferreira

    Gostei!

    Não conhecia esse evento, mas achei válido. Instigante. 😀

    • T.K. Pereira

      E aí, Karlinha? Vai topar o desafio? 😉

      Abraço.

  4. DB.Sepulveda

    T.K., muito prazer!

    Acabo de me cadastrar para participar da corrida de novembro/2013.

    Encontrei um guia prático para escrever do The Guardian, mas não consigo ter acesso às planilhas.

    Pode ajudar-me?

    • T.K. Pereira

      O guia do qual está falando é este aqui?

      Pelo que vi você precisa se cadastrar no site do jornal ou acessá-lo com sua conta do Facebook, Twitter ou Google Plus. Você já fez isso?

      Abraço.

  5. Anilto

    Eu me inscrevi. Hoje recebi um email com três interessantes PDF para a preparação. Vamos ver no que vai dar…

    • T.K. Pereira

      Dá-lhe, Anilto!

      Não deixe de compartilhar a experiência conosco depois. 😉

      Abraço.

  6. Alexandre Lobão

    Perfeito e MUITO legal, T.K.!

    Com certeza uma experiência inesquecível!

    Obrigado por compartilhar, e acho você foi muito feliz em seus comentários.

    Abraços.

    • T.K. Pereira

      Grande, Alexandre!

      Que bom que gostou do artigo. Vai encarar o desafio? 😉

      Abraço.

  7. Professor Newton Rocha Tio Nitro

    Vou participar esse ano. Quem quiser me adicionar lá nos fóruns, basta procurar por newtonrocha 🙂

  8. Wania Gonçalves

    Eu tenho um romance já encaminhado, mas sempre me aparecem outros. Se surgir algo, quem sabe eu entro nessa; seria a primeira vez. Vamos ver. ^^

    Onde posso me inscrever, se for o caso, claro?

  9. isaac-sky

    Já tinha ouvido falar, mas não sabia que havia até brasileiros na parada. 😀

    Talvez eu aplique o meu novo conceito pra uma fantasia medieval. XD

    • T.K. Pereira

      Há mais brasileiros do que pensa, Isaac. 😉

      Abraços.

  10. Anilto

    Bem que os blogs de escrita brasileiros poderiam promover um evento destes em nível nacional. “EULEUM – Escreva um livro em um mês”…

    • T.K. Pereira

      Seria interessante, sem dúvida, Anilto.

      Mas seria preciso pensar melhor nesse acrônimo aí. 😛

      Abraço.

  11. Jean Alves

    Estou pensando em tentar… tem valor para inscrição?

    • T.K. Pereira

      Não, Jean, o evento é gratuito. Basta se inscrever, planejar e escrever loucamente! 😉

      Abraço.

  12. Bia Machado

    Hum, pode ser escrito em português, né?

    • T.K. Pereira

      Sim, Bia, seu romance pode ser escrito em qualquer idioma; não há restrições quanto a isso.

      Abraço.

  13. D.

    Eu entendi corretamente? Para ser um vencedor só é necessário terminar o desafio?

    Pensei isso porque não encontrei como se selecionam os vencedores… Ou é quem termina primeiro?

    Alguém vai poder ler o que eu escrevi?

    Tenho que baixar algum aplicativo pra participar?

    Olha, vai ser louco; barra pesada mesmo. Tenho muitas desculpas pra não participar, mas eu vou cometer essa “insanidade” antes que seja tarde demais pra uma aventura assim!

    • T.K. Pereira

      Enigmático D.,

      Pelas diretrizes do evento, é considerado vencedor quem ultrapassa a marca das 50 mil palavras dentro do prazo de 30 dias. Note que nem mesmo é necessário concluir o romance, mas isso já fica a critério da consciência do participante – afinal, toda história deve ter um início, meio e fim. 😉

      Há uma ferramenta no site onde você deve colar todo o texto de seu romance para que o sistema faça a contagem de caracteres.

      Ninguém terá acesso ao seu texto, a não ser que você mesmo o disponibilize em algum lugar.

      Também não é preciso fazer o download de nenhum aplicativo. Basta se inscrever no site, se planejar e começar a escrever.

      Se você já tem uma ideia para um romance, eu sugiro que comece a escrever rascunhos neste mês de outubro: crie os personagens, pense na trama, nas reviravoltas, faça pesquisas, enfim, elabore um guia mais completo possível para utilizar como referência no mês do desafio.

      Sucesso!

      Abraço.

  14. Beatriz

    Veio em hora certa esse post. Tive uma ideia ontem, acho que com isso coloco no papel. 😉

    Ótimo post.

    :*
    Beatriz

    • T.K. Pereira

      Faça isso, Beatriz. Aproveite a véspera do evento para fazer uma tempestade de ideias, criar personagens, elaborar tramas.

      Você verá como tudo isso será extremamente útil em novembro.

      Abraço.

  15. Lorena Otero

    Legal, Escriba! Sempre achei audaciosa a proposta do NaNoWriMo. Vai ficar de fora esse ano?

    • T.K. Pereira

      Sim, srta. Otero, não participarei desta vez.

      Este ano tenho planos ainda mais audaciosos. 😉

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