Taldor Fendeaço interrompeu os passos para lançar um olhar preocupado para o céu. Um sol pálido se fez notar no oeste por trás de nuvens cinzentas. Um vento frio soprou através dos cumes gramados, carregando um aroma bem familiar ao jovem anão: chuva. O tempo mudara novamente.
Era sempre assim naquela região, àquela época do ano. Não pela primeira vez, ele atravessava os ermos verdejantes em direção a Arnglar. O vilarejo não tinha qualquer atrativo, mas o apreço que desenvolvera por seus habitantes o tornavam um segundo lar.
Por seus cálculos, a viagem não duraria muito mais. Estava farto daquele território desolado e das chuvas diárias. Naquele momento, outra tempestade se formava sobre sua cabeça; precisava encontrar novo abrigo. Os temporais eram muito fortes, principalmente no verão, e seu camisão de cota de malha seria um chamariz perfeito para os raios mortíferos.
Correndo os olhos pela paisagem, sentiu-se perdido momentaneamente. Os ermos não forneciam pontos de referência e até mesmo um rastreador experiente, munido de um mapa ou dois, poderia se perder facilmente. Taldor não era um rastreador; estava longe de conhecer todos os caminhos. Ele tampouco confiava nos mapas dos Reinos Fronteiriços – estes jamais acompanhavam o ritmo vertiginoso com que reinos e cidades surgiam e desapareciam por ali. Contudo, dispunha de uma ferramenta útil que sempre lhe indicava para onde seguir.
Certificando-se da direção a tomar, Taldor forçou um pouco a memória e lembrou-se de um local situado não muito distante de onde se encontrava. Embora a idéia de abrigar-se naquele buraco não lhe agradasse, sabia não ter escolha. Lançando outro olhar preocupado para os céus, ele preparou suas coisas e aumentou o ritmo das passadas, esperando atingir o abrigo antes que a tempestade o atingisse.
* * * *
O poente refletiu na pedrinha erguida contra o céu. Recostado no tronco de uma árvore frondosa, Meldeau Desbravaterras admirava seu amuleto e descansava de uma caminhada que considerara longa demais. A visão da pedra polida girando diante de seus olhos cor de mel sempre relaxava o jovem halfling.
Magnífica. Encantava-se com o branco que jamais encardia e com o brilho sobrenatural emitido quando tocada pelos raios solares. Embora a pedra parecesse mágica, ele sabia não haver nela nada de extraordinário – nada além de sua própria beleza e origem. A imagem da lagoa sagrada invadiu sua mente, trazendo lembranças da terra natal. Há quanto tempo partira? Não lembrava bem.
Desviou o olhar para o mar de colinas que se estendia por toda a sua volta. Aquela era uma terra de ninguém, sem atrativos e sem vida. Não havia nada ali além de grama. A árvore sob a qual se encontrava poderia muito bem ser a única num raio de muitos quilômetros. Sentia falta das flores e das árvores da floresta, sentia falta da lagoa. Estava muito longe de casa.
Um farfalhar sobre a cabeça afastou a saudade. Colocou o pingente rústico em volta do pescoço, escondendo a preciosa pedra sob o corselete de couro batido, e olhou para o topo da árvore. Viu um vulto mover-se com agilidade por entre os galhos para cair de pé ao seu lado. Sorriu como sempre fazia diante das estripulias acrobáticas de seu companheiro de viagem.
Rhístel Sanguélfico retribuiu o sorriso com uma piscadela. Sabia que o halfling divertia-se com seus reflexos, ainda que não compreendesse o porquê. Considerava natural a graciosidade de seus movimentos, algo inerente à herança élfica e próprio de seu corpo esguio e diminuto. Acariciando os cabelos espetados que caiam sobre as orelhas ligeiramente pontiagudas, mirou o céu cinzento com olhos negros inteiramente humanos.
Erguendo-se em silêncio, Meldeau olhou para o outro, aguardando o parecer. O rosto de feições delicadas e escuro como obsidiana fusca estava impassível. Quando o silêncio se prolongou, achou que deveria tomar a iniciativa.
– E então, Rhís? – indagou com sua voz estridente.
– Tinha razão, a tempestade vai ser forte. Precisamos nos abrigar. Vi algumas ruínas ao norte.
– Eu te disse, não disse? Os pêlos de meus pés nunca me traem! Sempre posso contar com eles para evitar coisas ruins!
Rhístel encarou a figura de cabelos encaracolados e sorriu; achava curioso que tanto as madeixas quanto os tufos de pêlo nos peitos dos pés tivessem a mesma cor flamejante.
– Quanto aos seus pêlos eu não sei, mas é certo que seus pés são bons para tirá-lo de enrascadas, Mel. – disse, fazendo troça.
Meldeau sorriu, corando de vergonha. Percebera ali a referência velada à partida apressada de Fortenovo, palco da mais recente encrenca provocada pela curiosidade quase infantil. O olhar do companheiro estava fixo sobre ele, como se esperasse que dissesse algo. Pelo visto, Rhístel ainda estava disposto a tentar entender o que, exatamente, havia acontecido naquela aldeia.
– A que distância as ruínas estão? – questionou, mudando o rumo da conversa.
– Não muito longe. Partindo agora, chegaremos antes que a água caia.
– Você não respondeu à pergunta. – um sorriso irônico assomou no rosto redondo.
– Nem você.
O halfling franziu o cenho.
– Desculpe, não percebi que havia feito uma.
– Não diretamente. – o tom de voz soara subitamente sério.
Meldeau olhou demoradamente para o norte, fingindo-se de desentendido. Soprando algo como “vamos indo então”, ele começou a caminhar apressadamente, sem olhar para trás.
Suspirando e seguindo no rastro do companheiro, Rhístel imaginou quando a razão da fuga de Fortenovo lhe seria revelada. Aborrecia-se com a constante esquiva do assunto; fosse o que fosse, achava-se no direito de saber, afinal, também fora envolvido. Respeitaria o silêncio do halfling por ora, então tentaria novamente. Tentaria quantas vezes fosse necessário, mas descobriria em que confusão Meldeau se metera daquela vez.
Continua…
Para saber mais:
- Capítulo Anterior – A Busca
- Reinos de Aventuras, histórias de fantasia: onde explico o modo como pretendo publicar esta série no blog.
Outros capítulos da série:
Arco 1: Uma noite sombria
1. A Busca
3. Encontro Inesperado
4. Sombras e Desconfianças
5. Portas Abertas
6. Há muito mais a temer…
Por que você tem escondido tudo isso de mim?
– Tá publicado na internet, sua tonta, não tem nada escondido!
Parabéns, Escriba! Você escrebe muito bem!
Longe de mim considerá-la tonta, srta. Otero. Acho que és apenas… distraída. Heh…
Obrigado pelos elogios e pela homenagem em sua assinatura.
Espero que continue me acompanhando aqui… e pela vida afora também!
Thousand kisses!