Sou filha de professora, que também era secretária na escola (estadual) em que eu estudava. Minhas tias, professoras – sempre serão apesar de não exercerem mais. Aqui em casa (ops, lá em casa, no passado) muitos livros, havia um armário com quinze volumes da Barsa. Lembro que necessitar dela pela primeira vez foi simplesmente científico. Senti-me aqueles pesquisadores incansáveis, visto em algum filme.
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Arte por Mateusz Ozminski (deviantArt)
Então eu te vi. Como quem vê banalidades atuais. A gente corria por aí. Bicicletas observáveis. Lojas, supermercados, o dia a dia que ainda pode matar. Era uma tatuagem a caminhar. Flores surreais, plurais. Olhar para trás pode ser um ataque, pode começar uma guerra, houve notícias que viraram sal.
Dirijo. Ao lado, pela janela entreaberta, o mundo, nítido. À frente, trânsito. Tarde da noite, e trânsito. As horas do dia pesam; corpo e mente clamando por piedade. Ignoro-os. Tento ficar atento ao meu redor, preciso encontrar aquele algo, o click, o insight. Nada.
O estômago urra – quando foi a última vez que comi? Os faróis são apagados pelo esplendor da praça iluminada. Luzes de Natal… Natal! Jesus, família, significados deturpados, o verdadeiro espírito da festa. Nada.
Foi um dia de atravessar portais. Para a estranheza de quem recebeu a chave oca do teletransporte, é de se esperar a surpresa do impossível. Ao chegar ao ponto de ônibus – local chamado de “na ponte”, que não é ponte – avistei um rico. Quiçá milionário. O que ele fazia na ponte? Tem helicóptero! Por aí, já pressenti: não existia aquele momento. Era ilusão o portal, a abertura, a chave. Minha vida.
Talvez o leitor não se lembre, mas 2014 começou para mim com um pedido de desculpas: comprometido com a conclusão do meu livro de contos, eu temia não conseguir atualizar o Escriba Encapuzado regularmente.
Felizmente, meus temores foram em vão. 2014 foi um ano frenético de escrita por aqui, com artigos bastante populares. Quatro deles se sobressaíram, atraindo muitos novos leitores – a propósito, sejam bem-vindos. Textos mais antigos foram redescobertos e compartilhados nas redes sociais.
É fato que o Brasil carece de livros técnicos sobre escrita de ficção. De vez em quando, nas grandes livrarias, é possível topar com essas raridades perdidas entre volumes de crítica literária, português, jornalismo, e até autoajuda (sim, autoajuda!).
As editoras nacionais parecem não se interessar por este tipo de publicação. Quando lançam um livro, não o divulgam o suficiente, sabe-se lá por quê – alguém aí soube que a Arte e Letra traduziu Story – Substância, Estrutura, Estilo e os Princípios da Escrita de Roteiro, de Robert McKee?
Por muito tempo, minhas experiências de escrita mais significativas foram as redações: nas escolares e preparatórias, destacavam-se com frequência; nos concursos, garantiam uns bons pontos.
Eu acreditava, porém, que para ser escritor não bastava familiaridade com palavras, ainda mais sendo formado em ciências exatas.